Viver de Música: O Patrão, o Funcionário, os Sócios e os Brothers

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No próximo ensaio, dê uma boa olhada em sua volta. Sabe aquela olhada clima filme de mistério? Olhe na cara de todo mundo. Tá, o povo é meio feião, mas você consegue! Você conhece essa galera faz tempo. Você confia neles. São os brothers (e alguns brothers do sexo feminino).

São sua galera mesmo. Mas você não sabe realmente como todo mundo está se sentindo. E isso é bem complicado. E inevitável.

Você sabe com certeza porque está tocando. Sabe por que escolheu viver de música e tem uma ideia razoável do que espera com a banda, que tipo de som quer que saia dali. Você também tem uma boa ideia de onde a banda vai parar, se tudo der certo, grasdeusamém! Mas você não sabe se o que te move, é o que move o resto da banda.

Sim, estamos falando de motivação.

Mas, se você está achando que vai chegar no fim desse artigo com a cabeça nas nuvens e um grande brilho no olhar você veio ao lugar errado (e anda lendo muito autoajuda…) – eu não sou assim tão charlatão.

A sua motivação é sua e é com ela que você vai conseguir mudar o mundo através dos seus fãs. O que te move, o que te faz cair da cama cedo (tipo umas 11h) e explicar ainda mais uma vez para seus pais que não, você não vai procurar “um emprego de verdade” é algo que está dentro de você e você não consegue enfiar para dentro dos outros, nem companheiros de banda, nem fãs.

Mas pelo menos a motivação pode ser muito contagiosa para viver de música!

Quando você sobe no palco com um sorrisão rasgado, querendo pular, gritar, correr e suar, você está dominado por uma sensação incrível que transborda por todos os poros e faz com que a galera pule loucamente na sua frente. Ou pelo menos parte da galera. Você nunca vai inspirar toda a população da cidade. Você sequer vai inspirar todo mundo na banda!

Os outros são os outros, não são cópias nossas

Nunca saberemos o que se passa dentro das outras pessoas. Motivação é algo totalmente pessoal, individual e intransferível. Inclusive a motivação da pessoa em viver de música e estar ali no ensaio construindo um sonho juntos.

Sim, a banda pode estar acreditando na mesma coisa que você acredita ou somente na diversão da coisa. Ou porque dá uma graninha. Ou porque não sobrou escolha profissional na vida da pessoa.

É dureza acreditar que nem todo mundo está ali na mesma sintonia para viver de música mas é verdade. Você está lá explorando território desconhecido, criando uma carreira musical. Tentando tirar inspiração sabe-se de onde para construir algo bacana e o resto dos caras está olhando para o teto pensando na morte da bezerra?

Mas isso não é de todo mal.

É meio comum que as bandas tenham um líder. Outras bandas preferem organizar-se de forma que todo mundo tenha um papel e todo mundo seja responsável pela briga, pelo sucesso.

Aliás, cá para nós, é o que todo mundo quer para viver de música, não é? Dividir responsabilidades, remando no mesmo ritmo, com foco no objetivo, dividindo a grana por igual, passando os mesmos perrengues…

E claro, muita banda começa assim mesmo e de repente vocês estão fazendo reuniões de grupo para dividir tarefas. Cobrando uns aos outros, tendo que fazer votação para decidir se grava um clipe ou prensa mais uma leva de CDs e o sonho comunista parece estar fazendo água, mais ou menos como o próprio comunismo na Rússia. Isso é porque nem todo mundo tem a mesma motivação e nem a mesma velocidade.

Os sócios

Há umas boas décadas atrás, um contrato com uma grande gravadora significava ir ensaiar e encher a cara com os caras da banda e cair na estrada seguindo a agenda que a gravadora passava. Isso era o viver de música.

Fim do mês a grana estava lá na conta. Claro que isso significava que sem contrato não tinha nada disso e, no máximo você passava a vida copiando suas demos em fitas K7 rezando para ela chegar na mão de alguém importante.

Banda hoje é outro assunto. Tem que estudar música, ensaiar, abastecer a página no Facebook, o Youtube, o Twitter, fazer a arte do cartaz de divulgação, orçar gravação, mix e master em três estúdios atrás do melhor preço. Orçar a prensagem do CD, mandar as músicas para o Spotify, ligar para o dono do bar para negociar cachê, passar foto e release para o jornal e para a rádio. Contratar o roadie, ligar para o técnico, bater o rider com o que a casa tem de equipo, reservar hotel, colocar gasolina na van, mandar imprimir as camisetas, etc. e etc.

E se der tempo no fim do dia, até dá para tomar umas. Mas se você encher a cara de verdade, vai acordar tarde no dia seguinte e não vai dar conta dessa puta lista gigante de coisa para fazer.

É claro que é muita coisa para uma pessoa só fazer, inclusive porque você já tem um emprego que é ser músico. Legal é todo mundo dividir as tarefas, um integrante agenda os shows, o outro faz as redes sociais, outro cuida de imprensa e outro de editais. Parece bacana, não?

Nesse esquema, dá até para encarar a partilha da grana de uma maneira mais esperta ainda: entrou cachê, já separa uns 10% para reserva, depois divide o restante irmãmente.

Com essa reserva, compra equipo, paga gasolina, pedágio, hospedagem. Reserva sempre é bom. Mas aí, se alguém quer sair da banda, tem que ir lá na reserva e devolver a parte da pessoa, dividir equipamentos. É chato, mas é parte da vida.

Mas e se ninguém da banda quer dividir a bucha?

Pois é. Motivo de morte precoce das bandas é justamente esse aí. Cada um entra na banda com uma pegada diferente. Nem todo mundo topa esse experimento social de ser dono de um treco que todo mundo é dono e todo mundo é peão.

Mas isso não precisa ser o fim do mundo.

Patrão e funcionários

Não é porque um ou mais membros da banda não tem essa sensação de propriedade que não podem contribuir e muito para o sucesso. A pessoa não tem iniciativa para correr atrás de shows mas manja muito de arranjo, ou de composição, ou simplesmente segura a onda de todo mundo no palco, faz um puta circo que deixa a plateia louca.

Todo mundo tem seu talento, basta você, que se identifica mais com o papel de liderança sacar a motivação da pessoa, o talento e deixar ela brilhar!

Putz, mas é como se fosse um funcionário, não é?

É, tem gente que tem esse clima. Qual a data, que hora é a passagem de som, me dá minha grana, valeu, até.

Mas isso não é para ser o fim do mundo. Só porque a pessoa se sente assim, não quer dizer que seja um/uma mau/má funcionário/a. É o que faz a pessoa se sentir bem. Tem gente que entra em pânico se não tiver emprego, se não tiver alguém dando ordens.

Tem gente que faz carreira no exército porque isso faz a pessoa feliz. Não é desprezar a inteligência. É apenas um estado emocional e, mais do que tudo, a motivação da pessoa na vida.

Depende de vocês

Você não precisa ser um porco capitalista e tratar o resto da banda a pão e água. Mas pode aceitar que os caras queiram ter menos responsabilidades e ganhar um fixo. É raro que isso realmente aconteça entre os caras de uma banda porque todo mundo quer ganhar igual, é claro. Depende de vocês.

Mas além da carga enorme de trabalho que o líder da banda acumula, tem um outro fator para ser levado em consideração: quem quer fixo aceita o risco de não receber? Ir até ali na esquina e dividir o cachê em três, quatro ou cinco é sussa. Mas e planejar um tour?

Somar valores de gasolina, hospedagem, alimentação e tentar zerar isso com os cachês é um risco e para valer a pena correr o risco, você tem que ganhar mais do que ganharia normalmente. Porque no dia que faltar, será que todo mundo topa dividir o estrago? Isso é o viver de música.

O meio termo

Em geral as bandas chegam a um meio termo de que um integrante da banda acumula todo o trampo e ganha um a mais por isso. Esse tanto a mais depende da combinação da banda. Mas se a pessoa (ou você) tem essa motivação de pegar burocracias e as outras encheções de saco, nada mais justo do que ganhar por isso.

É algo sem o qual a banda não pode mais viver. Aí pronto, todo mundo é igual, toma decisão junto, mas alguém tem que vai trampar mais, ganha mais.

Vale a pena? Depende muito da experiência de cada banda. Dá para passar por todos esses modelos administrativos de viver de música e ver no que dá. Vai depender também onde e como vocês se conheceram.

Sempre vale a pena lutar por um sonho juntos. Mas não vale a pena perder uma amizade só por causa de grana.

 
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