Produção: Como Se Preparar Corretamente? Parte II

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Na parte I do nosso conteúdo de produção, você conheceu um pouco da história da gravação. Entendeu o sistema analógico e digital, vantagens e desvantagens de cada um.

Agora vamos continuar com a parte II do processo de produção. Entrando em detalhes sobre as técnicas de produção, para que você saia daqui já sabendo qual metodologia vai escolher em estúdio e não chegue lá de mãos abanando. 

Ao Vivo

Na técnica de gravação “ao vivo” grava-se com todos os músicos tocando juntos. Ao mesmo tempo, como num show. Isso pode ser feito com eles na mesma sala ou em salas separadas.

Todas as gravações feitas até os anos 50 foram feitas dessa forma.

Se os músicos forem gravar tocando numa mesma sala, os vazamentos entre os sensíveis microfones utilizados em estúdios e gravação são inevitáveis. O que pode complicar a captação e a mixagem.

O ideal, nessa técnica, é que os músicos gravem em salas separadas. Mas para isso é preciso que o estúdio disponha de salas em quantidade suficiente.

Multitrack ou Multipista

As pesquisas para viabilizar gravações multi-pista (ou multitrack) tiveram início já nos anos 40. Mas as primeiras gravações usando essa técnica só foram feitas nos anos 50 por um homem cujo nome é muito conhecido por guitarristas: Les Paul, um country guitarrista daquela época.

Com a assessoria de Bing Crosby e da empresa de áudio norte-americana Ampex Corporation, Paul, junto com outros artistas populares como Mary Ford e Patti Page, continuou a usar a nova tecnologia para melhorar seus vocais e instrumentação ao longo dos anos 1950.

Nos anos 60 duas bandas consagraram o uso de gravações multitrack: The Beatles (com o seu genial produtor George Martin, falecido recentemente) e The Beach Boys.

A rigor, nessa técnica cada instrumento é gravado separadamente. Em horários, ou datas, ou mesmo cidades diferentes, como já dito.

Cada instrumento é gravado em uma ou mais novas pistas (tracks) ou trilhas. Daí o nome multitrack. Essa técnica utiliza o chamado overdubbing, que consiste em adicionar novos sons em uma pista livre ao mesmo tempo em que se ouve os sons das pistas já gravadas. 

Ao Vivo ou Multipista?

Há vantagens e desvantagens em ambas as técnicas. Cabe conhecê-las para melhor avaliar e decidir qual você e sua banda utilizarão.

Nas gravações “ao vivo” a grande vantagem é a maior espontaneidade e o “calor” que geralmente se obtém. A desvantagem é que nessa técnica vale a máxima “quem sabe faz ao vivo”.

Geralmente, ao menor erro de um dos músicos o take é interrompido e uma nova tentativa é necessária.

O uso dessa técnica, portanto, exige uma preparação ainda maior por parte dos músicos envolvidos. Caso o nervosismo ou a falta do devido preparo (que acaba acentuando o nervosismo) se faça notar vários takes serão necessários.

Se isso ocorrer, além de o processo tornar-se mais cansativo e caro, anula a vantagem da espontaneidade, já que dificilmente alguém consegue repetir a mesma música por várias vezes com o mesmo entusiasmo, principalmente após cometer erros.

Mas que raios é um take?

Durante a captação, quando o engenheiro ou o técnico de som disser “gravando”, está começando um take. O músico começa a tocar seu instrumento afim de gravar sua parte no arranjo. Se, por exemplo, ele cometer um erro, um novo take terá de ser feito.

Na nova tentativa, ou take ou tomada pode-se partir do início da música.

Com as facilidades de edição de hoje, épossível aproveitar a parte do take anterior ao erro e gravar o próximo à partir dali e, na mixagem, fazer a edição deles juntando os dois takes.

Lembra da Pré-Produção?

Nesse exemplo a parte do músico em questão será gravada em dois takes. Quanto menos takes forem necessários para a cada músico gravar suas partes, mais rápidas serão a captação e a mixagem. O que reforça a necessidade de os músicos se prepararem muito bem antes da gravação.

Na técnica multitrack pequenos erros do músico são tolerados, já que pode-se usar e abusar da edição para corrigi-los desde que o baterista seja minimamente preciso no andamento. Mesmo alguma imprecisão nesse aspecto pode ser corrigida pelo DAW durante a mixagem.

Mas, vale destacar que a correção desses erros toma tempo e, por isso, custa dinheiro. 

Captação da Bateria

O primeiro instrumento a ser captado costuma ser a bateria. Isso porque é mais fácil para o restante da banda gravar os seus instrumentos enquanto ouvem a linha de bateria já gravada.

Exatamente por isso a responsabilidade desse músico é muito grande. Portanto, recomendo fortemente que o baterista esteja muito bem preparado para a produção.

Do contrário é melhor adiar essa etapa e esticar a pré-produção por mais alguns dias ou semanas. Seguindo os cuidados que já orientamos quando tratamos dela numa conversa anterior aqui mesmo.

É sensato que antes de gravar, o baterista visite pessoalmente o estúdio de gravação. Para conhecer a sala onde a bateria será gravada, ver se o instrumento do estúdio precisa de algum tipo de reparo, se tem estantes de prato em quantidade suficiente e, principalmente, se ela tem a configuração (peles, medidas dos tons, caixa e bumbo) adequada para produzir a sonoridade que se pretende obter.

Se for utilizada uma bateria acústica, o que geralmente é feito, o baterista deve conversar com os técnicos do estúdio sobre alguns detalhes da captação. Eles sempre dão algumas orientações que podem ajudar muito no processo.

Conheça a Sala

Por ser um instrumento cuja sonoridade depende bastante de ambiência é importante conhecer a sala de gravação onde a bateria será captada. Uma dica é caminhar pela sala batendo palmas.

Você notará que a resposta sonora da sala vai mudando conforme você se desloca por ela.

Se a localização dentro da sala já interfere na sonoridade de um simples bater de palmas imagine para um instrumento como a bateria, que emite ampla gama de frequências sonoras, das mais graves às mais agudas.

Mudar a bateria e/ou os microfones de lugar dentro da sala pode produzir resultados surpreendentes. E mostra o quão interessante pode ser gravá-la em um estúdio que tem uma boa sala. Se essa sala dispuser de painéis acústicos melhor ainda!

Pode-se experimentar várias combinações de posicionamento da bateria, dos microfones e desses painéis. Um bom técnico saberá explorar essas características e aí os resultados com certeza serão excelentes.

Experimente a Bateria do Estúdio

Se o baterista chegar à conclusão de que vai usar a bateria do estúdio, isso permitirá ganhar tempo e por consequência economizar dinheiro.

Produção : bateria
Fonte: Dublin Studio

Não será necessário dedicar tempo na montagem da bateria nem para posicionar microfones, salvo um ou outro em que uma mudança no posicionamento deles possa produzir uma sonoridade mais próxima da que se pretende alcançar.

Também será mais fácil para o técnico de som, por já conhecer as Particularidades sonoras do instrumento a ser captado.

Mas, não raro, gravar com a bateria do estúdio traz um inconveniente. Como o instrumento do estúdio é utilizado na maioria das gravações feitas nele e os técnicos também são os mesmos para todas as bandas gravadas no mesmo estúdio os trabalhos podem acabar ficando com o som de bateria muito parecido.

E isso não é algo desejável. Especialmente num trabalho autoral.

Pelo contrário: colabora para que haja uma pasteurização desses trabalhos. Fica muito mais difícil obter-se um elemento que pode ser decisivo para um trabalho soar como único: a personalidade.

Isso fica mais grave quanto mais enxuta for a formação da banda a ser gravada. Num trio, portanto, fica potencialmente mais evidente.

E Agora?

As vantagens de se usar a bateria do estúdio podem não compensar também por que ela eventualmente ter uma configuração que não permite produzir determinados timbres, impedindo que se obtenha a sonoridade desejada.

E isso não quer dizer que a bateria do estúdio não seja boa. A questão é que as características dessa bateria podem não permitir ao baterista obter o som que deseja.

Por exemplo, caso se trate de um trio de jazz. O baterista pode preferir não usar a bateria do estúdio por ela ter tons e bumbo de medidas (diâmetro e profundidade) grandes, que geralmente produzem sons excessivamente graves e encorpados para o que ele julga apropriado para o seu trabalho.

Ou, imagine uma banda que explora reggae e ska. E no estúdio, o baterista se depara com um instrumento que tem caixas mais apropriados para hard rock.

Se escolher a bateria própria…

Se o baterista usar seu próprio instrumento eliminará dificuldades como essa. O preço é ter de dedicar algumas horas para montar seu instrumento, fazer pequenos ajustes, posicionar e instalar os microfones e passar o som da bateria.

E, como já vimos, isso vai custar algum dinheiro a mais.

Mas os resultados não só para o som de bateria. E sim para o som da banda como um todo.

Compensam amplamente, já que sonoridade é vital para que um trabalho tenha personalidade e soe único.

Trata-se de ter uma assinatura sonora, uma impressão digital no som. Não apenas “uma vaidadezinha” como já me disse um certo ex-colega de banda.

Pré-Produção…de novo…

Sempre que possível a gravação da bateria deve ser agendada de modo que o período de montagem, afinação, microfonação e takes de teste possam ser efetuados um dia antes da captação propriamente dita.

Isso faz com que na hora de se efetivamente captar as linhas de bateria todos os envolvidos estejam descansados. O que com certeza melhora muito o rendimento e a qualidade do trabalho.

Enquanto toca para gravar a bateria, o baterista pode, se quiser, ouvir uma gravação anterior da mesma música, que pode ser um demo da fase de pré-produção.

Chama-se essa gravação de referência de gravação guia, ou somente guia.

É extremamente importante que o baterista seja capaz de executar os arranjos que foram definidos durante a pré-produção respeitando os andamentos definidos para cada música.

Para isso terá o auxílio do metrônomo, também conhecido como click. Ele deve deixar claro para o técnico ou engenheiro de som que precisará ouvir o click com mais volume que o da gravação guia.

Precisão

A precisão do baterista para manter-se no andamento correto permitirá que na mixagem seja possível explorar a edição, recurso sempre útil em diversas situações. Pequenas oscilações de andamento são toleradas e podem ser corrigidas na mixagem.

Mas, como já dissemos, devem ser evitadas já na captação por uma razão bem simples: corrigir na mixagem falhas de execução ocorridas na captação toma tempo, e num estúdio, tempo custa caro.

Por isso, quanto mais precisos forem os músicos, principalmente o baterista, mais rápida será a mixagem. E por isso, menos dinheiro gasto na produção.

Não render o que se pretendia numa gravação é muito frustrante. Sei disso porque já passei por essa experiência. Assim, reforço aqui a recomendação de garantir durante a pré-produção que esteja mesmo pronto para a fase de produção. 

Plano “B”

Mas, se por alguma razão durante a captação você não conseguir executar com perfeição alguma levada ou virada siga o plano “B”.

De que raios estou falando? Que plano “B” é esse? A resposta é: simplifique!

Toque mais simples, diminua a quantidade de notas, use uma levada ou virada mais “limpa”. Grave um take de segurança, em que a performance seja mais precisa e garantida. Se houver tempo aí volte a tentar gravar o arranjo com um pouco mais de complexidade.

Ok, não é agradável ter de apelar para esse recurso. Mas usá-lo e executar a canção com precisão e segurança é muito melhor do que insistir em algo mais complexo e não ter segurança para executá-lo com precisão.

Diferentemente de performances em shows, gravações são implacáveis: insegurança e erros de execução parecem gritar a cada audição. Todas as vezes que você for ouvir o material gravado ficará insatisfeito com o que fez.

E isso vale não só para bateristas como para todos os músicos da banda. Dedique-se na pré-produção para que não seja necessário usar o tal plano “B”. Prepare-se bem e tudo correrá bem no plano “A”.

Captação – Demais Instrumentos

Normalmente o passo seguinte é a captação do baixo, depois das guitarras, teclados, metais e demais elementos da harmonia e, por fim, da voz.

Mas isso não é uma regra. Afim de economizar tempo pode-se, por exemplo, fazer a captação da bateria e do baixo simultaneamente, ou seja, em um mesmo take ou tomada.

Depois gravar guitarras base e teclados, depois solos e por fim as vozes. Fica a critério dos músicos, do produtor musical (se houver) e do pessoal do estúdio.

Recomendo aos músicos envolvidos, assim com sugeri ao baterista, que visitem previamente o estúdio escolhido para a gravação. É bom que cada instrumentista conheça certas particularidades inerentes à captação.

Por exemplo, mais no caso da guitarra que do baixo, diferentes posições de microfones costumam influir no som obtido.

Procure fornecer ao estúdio referências sonoras. Mostre, se necessário, alguma(s) música(s)  que tenham os timbres que você pretende alcançar no seu trabalho.

Pré-Produção…mais uma vez…

O que vou dizer agora vale para todos os músicos: respeite o que foi ensaiado e combinado durante a pré-produção.

Se ela foi bem feita não será necessário ficar experimentando alterações no arranjo durante a fase de captação. Principalmente se o trabalho contar com a participação de um produtor musical.

Caso, por alguma razão, não se possa contar com um produtor musical é comum que o engenheiro ou o técnico de som dê sugestões de mudanças no arranjo. Essas sugestões devem ser ouvidas, analisadas e até mesmo ser acatadas.

Mas, via de regra, não convém fazer grandes mudanças no arranjo durante a gravação. Se durante a gravação vocês se derem conta de que há necessidade de grandes modificações de arranjo é porque a pré-produção não foi adequada.

Dificilmente isso funciona bem. E aí talvez seja interessante interromper o processo e retornar à ela, negociando junto ao estúdio uma nova data para darem sequência ao trabalho.

Novamente: nenhuma dessas dificuldades ocorrerá se a pré-produção for bem feita. Ela é a base de um bom trabalho.

Prepare-se bem e tudo fluirá bem!

Se fez isso, agora vá ao estúdio e ‘quebrem tudo’!

Um abraço!

 
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